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Belle e o Farol

Texto escrito para a cerimônia de casamento de minha irmã mais nova, que tive a honra de conduzir.

Ela foi a última flor do Lácio. Chegou com sementes de cachos dourados na cabeça e rodeada de adultos. A menina-semente se faz da união de duas famílias que lhe entregam legados ancestrais. Força, energia e lutas já estavam no vocabulário comportamental dela desde cedo.

Se ao diamante bruto se oferece a água e abrasão para o polimento perfeito, aos cachos dourados a vida ofereceu lutas diversas e muitas tempestades. Seguindo o ritmo pendular das leis do universo, seu padrão de vida oscilou entre os vôs rasos e a dureza do chão árido. Entre a volúpia e a escassez, ela se fez flor em todas as rachaduras de onde a terra pudesse ver o Sol. Feito o coqueiro que não se intimida com os ventos que limpam a praia, essa menina resistiu bravamente aos golpes da vida.

No mundo em que impera a ansiedade e explosão, ela passou a maior parte do tempo como brisa, e aprendeu a se alimentar de cada raio de Sol para não sentir as faltas e os silêncios mais do que lhe convinha à saúde mental. Com os ursos aprendeu a hibernar, e sua vida foi cheia de esperas longas e reticentes. Com os ancestrais chineses aprendeu que a espera em correta atitude pode ter efeito mais poderoso sobre os desdobrares da vida que batalhas com 10 leões. E sua espera sempre teve a pureza da bondade de intenção, mesmo que incompreendida pelos que nos flancos recolhem seus louros.

Para sobreviver em mares bravios, ela aprendeu a recolher os remos em tempos difíceis. Olhares desatentos poderiam julgá-la descomprometida com o seu destino, mas ela sabia que a remada na hora certa só traria frustação. E foi em cada calmaria que ela foi desenhando seu destino a pesar de todas as tempestades.

Apaixonada pelo esporte e pela saúde, ela aprendeu que educar os corpos e as mentes poderia ser um caminho para a cura do mundo, mesmo que dela só fosse autora de pequena parte. E no caminho do “ensinar” o mar foi se abrindo para seu desabrochar.

Ela é dona dos sorrisos arreganhados nas fotos douradas que protagoniza. Curiosos devem se perguntar que aplicativo de câmera é esse que  conta uma piada durante a contagem regressiva da selfie.
A gente sabe que o mar vai ser sempre mar, e que as tempestade serão sempre noites em pleno dia nos oceanos abertos… Mas aos olhos de quem já sobreviveu às torrentes, o respeito cresce enquanto o medo diminui. E os tempos de recolher os remos parecem passado…

Agora o diamante bruto é joia reluzente.

Uma pedra de diamante é bela e nobre desde que a natureza a funde brutalmente em seu ventre. Ela não precisa ser amada e desejada para verter todo o seu esplendor. Os minerais são plenos e absolutamente completos nas profundezas onde se fundem. O ser humano apaixonado escava a montanha e rompe a pedra em busca do mineral perfeito… Não é o homem quem resgata o cristal nas intrincadas minas, mas o cristal que seduz e salva o homem de sua ânsia de se aproximar da beleza. A terra empresta ao homem a lembrança de que o belo não pode ser concebido, e que precisa ser sentido em silêncio na contemplação.

E havia aquele que atravessou mares para buscar nossa pedra não mais bruta… É tempo de um novo despertar!

Entre cavalgadas e remadas, pulando ondas e atravessando correntes, o príncipe das argolas auriculares chega para buscar nosso cristal de faces reluzentes. Ele é um príncipe sem reino e ela uma princesa que não precisa ser resgatada. Não há mulheres indefesas nem homens omnipotentes. Há apenas sujeitos dessa experiência transcendental em que o amor romântico se ancora. Nem mulher frágil, nem homem poderoso. Pessoas únicas que decidiram caminhar juntas pelos temporais e auroras.

Nesse amor que brota de um mundo em que o patriarcado não deve sobreviver, o feminino que há nele saúda o feminino que há nela, e do equilíbrio dessas polaridades que dançam por milênios surge o pilar que de agora em diante será o porto.

Vocês estão construindo um farol que está preso nas rochas lembrando SEMPRE de onde vocês partem nessa viagem. O farol é fixo, mas sua luz se expande mar adentro. Navegar é preciso!

Em busca da cura das mazelas do amor romântico eles se permitem a emoção de amar, mas não se iludem. Amor não é ferramenta de transcendência e felicidade por si só. Dar as mãos em uma caminhada é um pacto de crescimento junto, e não uma retroação ao corpo único! Lembremo-nos sempre disso!

Cada um caminha com suas próprias pernas e navega em seu próprio barco. Em comum, a luz do Farol que construíram juntos e que deve sempre lembrar de onde vieram. Entidades únicas e ricas, cada um terá uma longa estrada de evolução íntima, e será para o outro o porto, o aconchego, a intimidade.

Ele, cavaleiro das argolas auriculares, que atravessa mares atrás da beleza única que não pode ser concebida senão pelos sentidos vivos e atentos em sinestésica poesia. Ela, diamante forjado sob a pressão do ventre da mãe terra, que da abrasão se fez luz e reluz.

Seguirão juntos, porém indivíduos. O príncipe deixa de lado a pomposa coroa e a princesa se desfaz da manta casta da dita feminilidade frágil. Não há mais lugar para os jogos de sedução onde o íntimo se ancora nu. É tempo de se olhar de verdade.

Aos olhos do outro, é preciso que se deite o SER original, aquele  que tem a beleza do universo toda em cada célula do corpo. Não existe nada mais incrivelmente completo que o SER desnudo dos paradigmas de beleza e sedução da mente rasa. Sejam para o outro o único olhar que reflete a VERDADEIRA beleza de cada um.

Às demais distrações da beleza terrena, que seja dada atenção limitada e devida, porque vida é experiência e o belo foi criado para se expandir. Mas que ao final do dia, sempre conectados, os votos de parceria e amor se reforcem, como se olhassem para a luz do Farol que estará sempre ali para guiar essa linda viagem.


Ao se olharem nos olhos do outro, é preciso que esteja ali algo mais belo do que o espelho pode refletir. Porque o espelho traz o esplendor e a beleza que a luz revela em nossa face, mas os olhos do parceiro trazem  a beleza da experiência de alma que existe quando se fazem presentes, e isso não se pode perceber sem o outro. Sejam, portanto, o espelho vivo que reflete a alma em flor.
Hoje estamos aqui em festa de choro e alegria. Já que toda escolha é uma renúncia, todo esplendor em luz também é sombra. O sábio ensina que as árvores mais altas e frondosas têm as raízes mais profundas. Hoje celebramos um renascimento e também mortes. Celebramos o início de um ciclo e o fim de muitos outros.

Hoje é dia de abrirem os portões para novos campos e cerrar as porteiras das estradas às quais renunciam. É a alegria do nascimento e a dor do ventre vazio partilhando o mesmo altar. Somos todos testemunhas e guardiões desse porto que se edifica nesse altar, e seremos também guardiões desse farol… que ele nunca se apague e que possa ser SEMPRE a lembrança do que os uniu. Que o amor nutra todas as curas necessárias para que essa chama seja infinita enquanto dure.

Que assim seja!

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